OPINIÃO - POLÍTICA
Nas últimas semanas tenho, devido aos meus deveres paternais, contado, diversas vezes, a história da Carochinha. Nesta, a Carochinha apresenta-se na rua a propor casamento, pois é "formosa e bonitinha". Após negar várias candidaturas acaba por casar com o João Ratão, que se vem a revelar um grande guloso atraído pelo caldeirão.
O que tem isto a ver com a realidade? Muito. José Sócrates, após as eleições e a sua indigitação para primeiro-ministro, fez de Carochinha e apareceu na rua a propor casamento aos principais partidos parlamentares. Fossem de Esquerda ou de Direita, defendessem o Estado ou a iniciativa privada, tudo valia para a união. Mas, enfim, não apareceu o João Ratão pronto para ser cozido e assado no caldeirão.
E as razões são óbvias. Um convite para um acordo de Governo não se faz a todos, como um "menu à la carte", e muito menos em público. Se não se quiser recusas, a formação de um Governo de coligação depende da escolha discreta de um único parceiro e de conversas aprofundadas relativamente a um programa comum. Se assim não for é uma proposta com reserva mental, apenas feita para utilizar a recusa como argumento político. Para José Sócrates a diferença entre a maioria absoluta e relativa corresponde apenas a mudança de argumentos políticos: antes o do passado, agora o da recusada coligação de Governo.
O problema é a fuga para a verdade, como já aconteceu na tomada de posse do Governo "núcleo duro mais independentes de Esquerda". Na cerimónia, o primeiro-ministro, que se esqueceu de referir os graves problemas de competitividade e de endividamento externo, salientou a vontade clara que o eleitorado demonstrou ao apoiar um Governo "defensor das reformas e da modernização", enumerando várias acções do anterior Executivo por si dirigido. Isto é, o primeiro-ministro, que aceitava acordo com qualquer um, veio defender a herança e o passado que toda a Oposição critica. Por outras palavras, a Carochinha nunca teve vontade de casar e não parece querer ouvir as avisadas palavras do presidente da República sobre governos de minoria. Enfim, apenas uma coisa é certa: esta história vai acabar no caldeirão, resta saber quem nele vai cair.
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